PROF. JÚLIO BARREIROS MARTINS

Faleceu a 9 de Abril de 2026, com a idade de 95 anos, o Prof. Júlio Barreiros Martins, em Braga, Portugal. Era viúvo e pai de 4 filhos.
Quem foi o Prof. Júlio Barreiros Martins?
Júlio Barreiros Martins nasceu a 1 de Agosto de 1930 na freguesia de Monsanto, distrito de Santarém, em Portugal.
O jovem Júlio começou a instrução primária em Monsanto em 1937, mudando-se depois para Leiria onde concluiu os estudos primários em 1941.
Órfão de pai, esteve dois anos a trabalhar no campo, sem estudar, tendo retomado os estudos em Leiria em 1943, como trabalhador-estudante, a partir dos seus 13 anos de idade. Beneficando de ajudas beneméritas, veio a concluir, com a média de 16 valores, o Curso Elementar de Comércio em 1946. Com esta formação, começou a trabalhar como contabilista encartado de um armazém de mercearias aos 16 anos. Sendo autodidata, no ano lectivo de 1947/1948, estudou todas as disciplinas dos 4°, 5° e 6° anos liceais e como examinando externo, foi aprovado, no exame do 6º ano em todas as disciplinas. No ano seguinte, 1949, concluiu o 7º ano do ensino liceal com a média de 16 valores, com 17 valores de média nas disciplinas nucleares para acesso às faculdades de Ciências e de Medicina.
Foi admitido na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra em 1949, sendo bolseiro de alimentação, e mais tarde, foi convidado a dirigir o refeitório, o que lhe dava direito a refeições e dormida gratuitas. Frequentou, até 1952, os três primeiros anos da licenciatura em Engenharia Civil. Após mudar-se para a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, continuou a trabalhar no refeitório, dando também explicações e fazendo a publicação de sebentas, para a sua subsistência e da sua família. Concluíu a licenciatura em Engenharia Civil em 1955 com a média final de 16,4 valores.
Foram-lhe atribuídos inúmeros prémios escolares.
A sua carreira profissional e académica teve início em Moçambique em 1957, quando cumpria dois anos de serviço militar na arma de Engenharia de 1957 a 1959.
Destacam-se as seguintes etapas na sua actividade em Moçambique.
– Nomeado Chefe do Serviço de Sondagens e Fundações do Laboratório de Engenharia de Moçambique em 1957 e até 1968;
– Graduado com um Diploma de estudos pós-graduados pelo Imperial College of Science and Technology da Universidade de Londres (DIC), em 1961;
– Graduado como Master of Science (MSc. Eng) pelo Imperial College of Science and Technology da Universidade de Londres em 1962;
– Contratado pela Universidade de Lourenço Marques como Assistente em 1963;
– Doutorado, após prestação de provas de doutoramento na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em 1966, com a classificação de 19 valores;
– Nomeado Director do Curso de Engenharia Civil na Universidade de Lourenço Marques em 1968;
– Agregado, após prestação de provas de agregação na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em 1969;
– Contratado como Professor Extraordinário pela Universidade de Lourenço Marques em 1969;
– Aprovado como Professor Catedrático da Universidade de Lourenço Marques em provas públicas realizadas, para esse efeito, na Universidade do Porto em 1970;
– Nomeado Director da Faculdade de Engenharia da Universidade de Lourenço Marques em 1972;
– Actividade docente e de investigação, liderando a estruturação do curso de Engenharia Civil na Universidade de Lourenço Marques e a montagem e apetrechamento dos laboratórios pedagógicos e de investigação a partir de 1963.
Não pretendo ser enfadonho citando detalhadamente o vasto património de obras em que o Prof. Barreiros Martins esteve envolvido, em Moçambique, quer como especialista de Estruturas, quer como especialista de Geotecnia, subjectivamente citando algumas que poderão reconhecer:
– Torres Vermelhas em Maputo;
– Sede do Banco de Moçambique na Av. 25 de Setembro em Maputo;
– Edifício do BCCI (Banco de Crédito Comercial e Industrial), mais tarde Banco Comercial de Moçambique, ao lado do Mercado Central de Maputo e que foi a sede do BIM – Banco Internacional de Moçambique;
– Estação marítima de bombagem e porta-tubos de refrigeração com 1800 m para a Central Eléctrica da SONEFE que pode ser vista, no estuário de Maputo, ao longo da N4 entre a central térmica e a portagem de Maputo;
– Pontes na baixa de Chicumbane na EN1;
Projecto do Hospital Universitário, hoje Maternidade do Hospital Central de Maputo;
– Apoio ao LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) nos ensaios geotécnicos e montagem de aparelhagem de observação e de controlo de betões na Barragem de Cahora-Bassa.
Terminou a sua actividade em Moçambique em 1975, com a Independência de Moçambique, tendo sido contratado como Professor Catedrático na Universidade do Minho nesse mesmo ano. É então que tem início a segunda fase da actividade profissional – como académico e como investigador – do Prof. Barreiros Martins.

As Torres Vermelhas em Maputo

Teve férias sabáticas em 1976, leccionando, como professor visitante, no curso de Engenharia Civil na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil.
De volta à Universidade do Minho, o Prof. Barreiros Martins concentrou a sua actividade no arranque da recém-criada Universidade do Minho, onde exerceu funções de coordenação ou de chefia, designadamente:
– Responsável pela Área de Engenharia Civil (hoje Departamento de Engenharia Civil), pelos laboratórios de Engenharia Civil e pelo curso de Engenharia Civil;
– Responsável pela Divisão de Geotecnia dos Laboratórios de Engenharia Civil da Universidade;
– Responsável pelo subgrupo de Estruturas;
– Presidente da Unidade Científico-Pedagógica de Engenharia (hoje Escola de Engenharia);
– Presidente (reeleito) do Conselho Científico da Universidade;
– Vice-Presidente do Conselho Académico da Universidade;
– Presidente do Centro de Engenharia Civil;
– Director do Curso de Mestrado em Engenharia Civil.
O Prof. Barreiros Martins, com quem tive o privilégio de conviver e que foi decisivo no lançamento e formatação da minha carreira profissional, [além de meu professor, foi meu chefe no meu primeiro emprego e, anos mais tarde, o meu orientador de doutoramento em Engenharia Civil] era um homem simples e de trato fácil. Recordo que na sua vinda a Moçambique, em 1982, o Prof. Barreiros Martins viajava em classe económica. Um professor catedrático, num voo intercontinental, a viajar em económica? Viajar em económica não desonra ou diminui ninguém. Até pelo contrário, pois mostra que o que faz o homem nao é a classe em que ele voa mas a sua postura na vida.
Boas recordações guardo do Prof. Júlio Barreiros Martins.

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