CONSUMO DE ÁGUA NO GRANDE MAPUTO COM CHEIAS

Introdução

Há poucas semanas, talvez mesmo dois meses, eu via as notícias na televisão quando o Eng.º Carlos Mesquita, Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, apareceu nos écrans, a dizer que, apesar da coloração, a água em distribuição na área metropolitana de Maputo podia ser consumida, pois fora devidamente tratada.

Figura 1 – Vista parcial da Cidade de Maputo, mostrando os Bairros do Chamanculo e do Jardim

Sei que alguns analistas de sofá, à falta de melhor nome, se insurgiram contra o Eng.° Carlos Mesquita, “por nos querer fazer consumir água imprópria”.
Antes do mais, interessa perceber o que o Ministro estaria a transmitir.
Vai-se introduzir dois parametros de caracterização da água relacionados com a sua cor.
1 – Características da Água
1.1 – Cor
A água pura, se é que ela existe, é incolor. A manifestação de cor da água é, à partida, sinal de poluição.
A cor da água pode provir de matéria em suspensão, sendo então denominada cor aparente. Por outro lado, a cor da água que se deva a matéria nela dissolvida que persista mesmo depois da remoção da matéria em suspensão, é chamada cor verdadeira ou cor real. A cor é medida em TCU (true color units).
Como, acima de 15 TCU, a coloração da água num copo é evidente a um observador, 15 é o limite de cor geralmente adoptado na regulamentação de qualidade da água para consumo.
1.2 – Turbidez
A água pura, se porventura existe, é transparente, não absorvendo, por isso, luz.
Esta é a razão por que a turbidez na água é vista como um sinal de poluição. A turbidez advém de matéria em suspensão, matéria dissolvida e da carga microbiológica. Naturalmente, a turbidez é mais alta quando a água está mais carregada da matéria que a provoca, dependendo o grau de absorção da luz ou o grau de turvação, do tipo de matéria presente.
A matéria em suspensão presente na água e causadora da turbidez pode ser tóxica ou prestar-se à captação de químicos tóxicos.
A turbidez nem sempre constitui, em si, um risco para a saúde, mas a sua ocorrencia perturba o consumidor.
A existencia de água turva, na rede de distribuição, atesta problemas que provavelmente começam na água captada e se irão estender até à torneira do consumidor.
Deve-se ter presente que a turbidez na água distribuída pode significar uma deficiente remoção de microorganismos patogénicos.
Após a filtração, na estação de tratamento, a turbidez pode ser derivada de:
– Problemas na dosagem dos produtos químicos, designadamente os agentes de floculação, auxiliares de decantação e produtos químicos de controlo pH;
– Precipitação de produtos químicos insolúveis provindo dos produtos químicos utilizados ou formados, nomeadamente na correcção do pH;
– Produtos derivados da oxidação de produtos químicos presentes na água captada, tais como arsénio, ferro e manganésio.
A turbidez mede-se em NTU (nephelometric turbidity units), sendo a turbidez de 4 ou acima visível a olho nu. Como o consumidor tende a olhar para a água turva como imprópria, na normação de qualidade da água para consumo, esta não deve ter mais de 1 NTU.

Figura 2 – Centro Distribuidor do Chamanculo vendo-se seis depósitos enterrados e um depósito elevado
2 – Consumo de água per capita
Não disponho dos valores de consumo de água per capita em Moçambique. Esses dados poderiam ser calculados por levantamento do consumo por agregado familiar ao longo de um período representativo do consumo existente e de uma medição correcta dos valores de consumo.
E mais que isso, ter a ideia precisa da forma como a água registada no agregado familiar seria utilizada, requerer acesso ao agregado e a sua disponibilidade para facultar os dados de consumo. Note-se que este não é um exercício fácil em qualquer parte do mundo. Com efeito, nenhum indivíduo dispõe da quantificação de água que consome no banho, que usa na lavagem de mãos, na lavagem de roupa, na confecção de alimentos e em outras actividades como a lavagem de viaturas ou a rega de jardins.
A melhor informação documentada de que disponho, para o País, provém de uma comunicação por Sandy Cairncross e Julie Cliff, de um estudo em 1987, sobre o impacto da distancia da fonte no consumo de água. Os autores descrevem que, na comparação de duas aldeias do planalto de Mueda, com a redução da distancia de 5 horas para 10 minutos, o consumo tinha passado de 4.1 litros per capita, para 11.1 litros per capita. O banho e a lavagem de roupa cobriam 70 % do aumento, passando as crianças a ter um banho nocturno com regularidade na aldeia próxima da fonte, o que não sucedia na outra aldeia. Além disso, o consumo de água na confecção de alimentos cresceu na aldeia melhor servida de água, sugerindo os autores que o melhor abastecimento de água tinha uma influencia na dieta alimentar.
Recorrendo à literatura além-fronteiras, pode-se ver valores de distribuição do consumo no domicílio, em Thompson, et. al., Drawers of Water II, 2001, reportando um estudo de 1997 a 2001 no Quénia, Tanzania e Uganda.
O estudo mostra que o consumo médio de água per capita é de 38.7 litros para o universo de consumidores, englobando, quer os de água canalizada, quer os de água não canalizada.
Considerando o consumo de água somente para os consumidores de água canalizada, o consumo médio de água per capita é de 44 litros, assim distribuídos:
i – Consumo [9 %]
Cozinha e bebida – 4.2 litros
ii – Higiene [75 %]
Banho – 17.4 litros
Lavagem de louça, roupa, higiene pessoal e sanitários – 16.3 litros
iii – Amenidades [10 %]
Jardinagem, lavagem de carros e uso não essencial – 4.4 litros
iv – Produtivo [6 %]
Abeberamento de gado, horta, produção de bebida – 2.7 litros
 
Reitera-se que os números apresentados são valores médios para tres países vizinhos, cada um dos quais tem as suas particularidades, tanto mais que o consumo per capita é de 68.3 litros na Tanzania, 58.5 litros no Uganda e 45.4 no Quénia.
Os autores fazem uma observação interessante: de que a quantidade de água consumida na confecção de alimentos e ingerida praticamente não difere, quer se tenha água canalizada ou não, tendo-se 3.8 litros per capita para habitações sem água canalizada, enquanto se tem 4.2 litros para habitações com água canalizada.
A grande diferença observada é na água para higiene, dada como água para banho e lavagem, incluindo sanitários. Enquanto o consumo per capita de água no banho, como dito acima, é de 17.4 litros para habitações com água canalizada, o valor desce para 7.3 litros nas habitações sem água canalizada, menos de metade. Similarmente, o consumo per capita de água em lavagem e sanitários, antes apresentado como 16.3 litros para habitações com água canalizada, reduz-se para 6.6 litros, em habitações sem água canalizada, também menos de metade.
Esta constatação revela como a disponibilidade de água é factor decisivo na higiene. Tal quer dizer que a água, ainda que turva, vai permitir a satisfação das necessidades de higiene.
Fazendo uso dos dados acima, observa-se que somente a água de consumo requer potabilidade absoluta, ou 4.2 litros num total de 44 litros por indivíduo, ainda que se possa referir não existir uma reprodução exacta da realidade produtiva no consumo indicado, pela inexistencia de gado e produção de bebida no perímetro urbano da área metropolitana de Maputo.
 
3 – A Água na Transmissão de Doenças
Bradley (1974) apresentou, curiosamente, com base no seu trabalho 30 anos antes no Quénia, Tanzania e Uganda, a que Thompson deu continuidade, uma classificação das doenças relacionadas com a água. Posteriormente, Feachem (1977), reformulou-a, dando enfase aos mecanismos de transmissão de doenças infecciosas relacionadas com a água.
 
3.1 – Doenças do Tipo Fecal-oral
As doenças do tipo Fecal-oral são doenças transmitidas pela água em que esta actua como um veículo passivo do agente infectante.
Estas são doenças em que a transmissão do agente infectante está associada a uma baixa qualidade bacteriológica da água. O organismo patogénico inicialmente presente em matéria fecal aparece agora na água e é ingerido pelo indivíduo que pode ficar infectado.
Doenças infecciosas deste tipo incluem não só as clássicas que podem ser causadas através de baixas doses infectantes (tais como a cólera e a febre tifóide), como também as que requerem maiores doses infectantes para a sua transmissão (como por exemplo a hepatite infecciosa e a disenteria bacilar).
De notar que a transmissão destas doenças pela presença do organismo patogénico na água não é a única possibilidade de transmissão (esta constitui a via mais vulgar de transmissão, não sendo, no entanto, exclusiva), dado que qualquer doença deste tipo pode ser transmitida por qualquer outra via que permita a ingestão de matéria de origem fecal.
 
3.2 – Doenças do Tipo Transportável pela Água
Estas doenças são causadas pela falta de água, sendo a sua propagação acelerada pela falta de quantidades adequadas de água para lavagem e/ou por uma fraca higiene pessoal.
Incluem-se neste grupo as doenças infecciosas cuja redução se consegue pelo melhoramento das condições de higiene doméstica e pessoal através do uso de maiores quantidades de água. A água torna-se assim um agente de diluição e de transporte dos organismos patogénicos, daí que a sua qualidade não é importante uma vez que a mesma não é ingerida.
 
4 – A Água e a Higiene
Conhecendo agora os mecanismos de transmissão de parte das doenças relacionadas, facilmente se infere a importancia da disponibilidade de água para a higiene pessoal.
A análise dos dados do estudo apresentado por Thompson mostra como é diminuta a quantidade de água que é ingerida, uma vez que o grosso da mesma, cerca de 75 %, é utilizado em higiene.
Assim, a água da área metropolitana de Maputo podia ser utilizada, ainda que sofresse de turvação acima da normada, tendo o cuidado de a ferver previamente, se esta se destinasse ao consumo, leia-se bebida, enquanto a turvação ou coloração da água persistisse. Mal esta desaparecesse, a fervura deixa de ser imperiosa, passando a ser uma opção pessoal.
E nem é necessário enfatizar, por ser de conhecimento generalizado, como é importante dispor de água para a lavagem de mãos, em tempo de pandemia de COVID-19, que infelizmente continua no nosso seio.
E também não são necessárias muitas palavras para ter em atenção o surto de cólera que está a alastrar pelo País, sendo bem sabido que o combate à sua propagação requer saneamento adequado, por um lado, a fim de impedir o Vibrio cholerae de recircular na água e alimentos, e por outro lado, dispor de água para a higiene pessoal e a lavagem de mãos em particular, como foi antes aqui documentado.
 
Bibliografia
– Thompson, John, Porras, Ina, Tumwine, James, Mujwahuzi, Mark, Katui-Katua, Munguti, Johnstone, Nick, Wood, Libby. (2001). Drawers of Water II: Thirty Years of Change in Domestic Water Use and Environmental Health in East Africa. International Institute for Environment and Development (IIED).
– White, Gilbert F., David J. Bradley, Anne U. White. (1987) – Drawers of Water: Domestic Water Use in East Africa, University of Chicago Press.
– Feachem, Richard. (1975). Water Supplies for Low-Income Communities in Developing Countries. Journal of the Environmental Engineering Division, American Society of Civil Engineers (ASCE) 101. 687-702.
– Cairncross, Sandy & Cliff, Julie. (1987) – Water Use and Health in Mueda, Mozambique. Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene. 81. 51-54.
 
 
* O autor é Engenheiro Civil e Sanitário e foi professor na Universidade Eduardo Mondlane onde leccionou Abastecimento de Água e Saneamento na Faculdade de Engenharia, e Doenças Infecciosas Relacionadas com a Água na Faculdade de Medicina.
 

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