CÓLERA NA GRANDE MAPUTO

A grande Maputo está de novo a sofrer de cólera. Algo que vira um ciclo vicioso, periodicamente repetido.
A cólera é causada pelo Vibrio cholerae, uma bácteria presente nas fezes de indivíduos infectados ou portadores da doença que, por vias diversas, acaba por ser ingerida por via oral por outro indivíduo.
Vinha eu, há poucas semanas, no carro a escutar o jornal noticioso das 12:30 da Rádio Moçambique quando ouvi as declarações de um porta-voz do Ministério de Saúde, em conferencia de imprensa, a respeito do ressurgimento da cólera na cidade de Maputo. Dizia o porta-voz, entre outros pontos, que na prevenção da cólera se deve melhorar a higiene pessoal, designadamente pela utilização de água para prevenção e combate.
Por outro lado, momentos depois o Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, em declarações noutro contexto, apelava ao uso criterioso da água na grande Maputo, dada a precária situação de enchimento da albufeira de Pequenos Libombos, mesmo depois das recentes chuvas registadas. O Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos caracterizou ainda a cólera como uma doença hídrica.
Está-se perante um sério desafio: num cenário, o Ministério de Saúde recomenda ao citadino acções de higiene pessoal pelo uso da água no seu asseio e, noutro cenário, esta água não está disponível e, quando disponível, deve ser utilizada com austeridade, segundo o Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos.
Como acima referido e assiduamente veiculado na comunicação social, a cólera é classificada como uma doença hídrica. É de facto a cólera uma doença hidrica?
Dois aspectos carecem de atenção:
1 – É a cólera uma doença hídrica?
2 – Perante a necessidade de conciliação das recomendações complementares, ainda que aparentemente contrárias, do Ministério de Saúde e do Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, no uso da água, como deve afinal o citadino proceder?
A classificação das doenças relacionadas com a água proposta por Bradley (1974) e reformulada por Feachem (1981), dando enfase aos mecanismos distintos de transmissão de doenças infecciosas relacionadas com a água, facilmente ajuda a entender como a cólera pode ser transmitida.
a) Transmitidas pela água em que a água actua como um veículo passivo do agente infectante.
Estas são as doenças do tipo Fecal-oral: São doenças cuja transmissão do agente infectante está associada a uma baixa qualidade bacteriológica da água. O organismo patogénico inicialmente presente em matéria fecal aparece agora na água e é ingerido pelo indivíduo que pode ficar infectado.
Doenças infecciosas deste tipo incluem não só as clássicas que podem ser causadas através de baixas doses infectantes (tais como a cólera e a febre tifóide), como também as que requerem maiores doses infectantes para a sua transmissão (como por exemplo a hepatite infecciosa e a disenteria bacilar).
De notar que a transmissão destas doenças pela presença do organismo patogénico na água não é a única possibilidade de transmissão (esta constitui a via mais vulgar de transmissão, não sendo no entanto exclusiva), dado que qualquer doença deste tipo pode ser transmitida por qualquer outra via que permita a ingestão pelo indivíduo de matéria de origem fecal.
b) Causadas pela falta de água sendo a sua propagação acelerada pela falta de quantidades adequadas de água para lavagem e/ou por uma fraca higiene pessoal.
Estas são as doenças do tipo Transportável pela água. Incluem-se neste grupo as doenças infecciosas cuja redução se consegue pelo melhoramento das condições de higiene doméstica e pessoal através do uso de maiores quantidades de água. A água torna-se assim um agente de diluição e de transporte dos organismos patogénicos, daí que a sua qualidade não é importante uma vez que a mesma não é empregue para consumo.
Quem prepare comida, seja em casa, seja num lugar público e, após ir à casa de banho, não lave as mãos, irá transferir o seu Vibrio cholerae, se for portador, para a comida que esteja a preparar (em casa ou num restaurante). Esta transmissão do Vibrio cholerae não é feita por via hídrica mas é precisamente a baixa higiene pessoal ou a falta de água para uma higiene pessoal efectiva que permite a propagação do Vibrio cholerae [a bactéria passa das mãos sujas do portador para os alimentos que ele esteja a processar e acabam por ser consumidos por terceiros]. Nota-se aqui que não há alguma presença de água contaminada no processo de transmissão, como ocorre numa via hídrica. Ironicamente, se houvesse água para higiene pessoal, a possibilidade de transmissão seria cerceada.
Disso se infere que a cólera não é uma doença hídrica. A cólera é:
i) hídrica se o Vibrio cholerae estiver presente na água consumida;
ii) não hídrica se for transmitida por razão de deficiente higiene, não havendo o consumo de água contaminada.
No essencial a cólera é uma doença de transmissão por via fecal-oral, com ou sem água, no mecanismo de transmissão. A transmissão hídrica pela água é uma das vias mas não exclusiva.
É óbvio que o conhecimento do mecanismo de transmissão é fundamental no estabelecimento, quer das formas de combate da propagação, quer do tratamento.
Hoje não há água bastante na albufeira de Pequenos Libombos que armazena a água destinada a tratamento para o abastecimento de água a Maputo.
A empresa que abastece de água a grande Maputo estabeleceu um calendário de abastecimento de água em dias alternados. No prédio onde eu vivo, por ser uma torrre de 25 andares com um depósito elevado que serve todos os moradores, a entidade gestora do prédio, faz a gestão desta água recebida em dias alternados e acumulada no depósito elevado, distribuindo-a todos os dias, mas sujeita a horário.
De manhã, por exemplo, a água é abastecida das 5 ou 6 da manhã e fechada às 9 horas. Assim, depois das 9 da manhã, para lavar as mãos, cada morador deve recorrer à água acumulada em recipientes no seu apartamento.
Considere-se, alternativamente, a situação do morador dos bairros periféricos de Maputo, sem água canalizada em casa: para se ter água é preciso ir ao fontenário, e é mais previsível ficar-se sem água em casa, ainda que inicialmente se tenha água guardada em recipientes, porque para tal, é primeiro preciso ir ao fontenário. Não é só simplesmente abrir a torneira e encher os recipientes porque não há torneiras em casa.
Não é de admirar que o grosso dos doentes de cólera em Maputo, presumo eu, sejam provenientes de bairros periféricos.
O que mais se pode fazer, perante o desafio que a cólera coloca, nesta situação de falta de água na captação, a par das mensagens veiculadas? Reforçar, tanto quanto possível, o abastecimento de água aos bairros periféricos onde o impacto da falta de água se faz sentir mais na propagação da cólera, e não só, do que nos bairros melhor infraestruturados e certamente com água canalizada em casa.
A efectiva erradicação da cólera em Maputo e em todo o País é certamente alcançável, embora condicionada a um abastecimento de água e de saneamento satisfatórios, um objectivo de médio ou longo prazo.
As acções hoje empreendidas não são mais do que pequenos passos.

* Este artigo foi publicado a ?? de ??? no semanário Savana

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